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LARANJA MECÂNICA DE STANLEY KUBRICK

Toda vez que revejo um filme de Kubrick, carrego ainda mais a certeza de que ele foi e continuará sendo um dos maiores mestres da sétima arte. Dos seus filmes trago a lembrança de cenas que ficaram em minha mente: O treinamento dos fuzileiros americanos na primeira parte de Nascido para Matar(1987) que culmina na loucura e suicídio de um dos soldados , a fotografia inesquecível de Barry Lyndon (1975), os diálogos finais de Tom Cruise e Nicole Kidman em De olhos bem fechados(1999,seu último filme) ou ainda o endiabrado Jack Nicholson em O Iluminado (1980). Só para ficar em quatro filmes...O quinto filme que coloco nessa lista deixo minhas impressões para depois , pois quem escreve abaixo é meu amigo Dilberto Lima Rosa (do Blog Morcegos). A sua análise de Laranja Mecânica(1971) comprova acima de tudo que o filme deve ser visto, discutido e sempre lembrado...



LARANJA MECÂNICA POR DILBERTO LIMA ROSA


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Entre roubos, estupros e espancamentos, Alex se diverte e filosofa sobre a vida juntamente com seu bando de druguinhos nadsates, num futuro próximo de uma sociedade não muito distante da nossa... Esta é a premissa do livro A Laranja Mecânica, escrito em 1962 por Sir. Anthony Burguess (um dos poucos gênios da Literatura contemporânea, autor de inúmeras obras, dentre novelas, poemas, peças de teatro e composições musicais) e com inúmeras adaptações. A maior delas, sem sombra de dúvida, é a feita para o cinema em 1971, pelo inigualável gênio Stanley Kubrick, considerada pelo próprio cineasta, falecido em 2002, como sua obra-prima - e olha que ele vinha de outro divisor de águas cinematográfico, 2001 - Uma Odisséia no espaço, de 69...

E, sem dúvida, uma das mais fiéis adaptações cinematográficas de uma obra escrita, se não fossem pequenas mudanças na estrutura narrativa, com a eterna mania kubrickiana de filmar tudo em três atos: assim, a passagem pela prisão e as interessantes conversas com o capelão, juntamente com o epílogo do livro, onde Alex reencontra, depois de alguns anos da adolescência mais que irresponsável, com um dos seus companheiros de loucuras, numa ode à maturidade normal que a vida sempre traz, foram passagens excluídas no longa, nada que comprometa a perfeição de um filme que transporta, em plena década de 70, uma sociedade atemporal, que pode funcionar ainda hoje como uma época colorida, porém decadente e carcomida de valores entre os jovens.

Com o prazer de conhecer tanto o livro como o filme, sou fã quase devoto do personagem Alex, com toda a sua violência absurda, aliada à sua mente imersa em profundidade artística (Alexander, The Great, como é conhecido "entre os seus", é fã ardoroso de música clássica, especialmente de Beethoven), a ponto de rir, desde a primeira vez a que vi (ou li) este espetáculo grandioso, nas passagens mais pesadas, como as agressões a pessoas idosas, mortes ou atos sexuais nababescos... Mas meu riso sempre foi aquele nervoso, incomodado com a facilidade de ver todo aquele universo violento pelos olhos argutos e irônicos, porém puros, de quem considero o maior anti-herói da História da ficção!

Mais "engraçado" ainda é relembrar seqüências absurdas, como uma criada especialmente para o filme: a invasão de uma mansão de classe média alta, perfeita, seguida de um estupro da dona da casa, assistido pelo próprio marido, espancado pelos demais delinqüentes de seu bando, enquanto Alex, de "máscara de pênis", canta Singing in the rain! Ou ainda as incontáveis gírias que o bando usa no seu dia-a-dia, fabulosas misturas etimológicas de termos russos e de Inglês arcaico criadas por Burguess, a ponto de o livro, ao seu final, apresentar um verdadeiro glossário, com traduções precisas em abrasileiramento de termos como "babúcheca" (mulher velha), "devótcheca" (moça, garota), "drugue" (amigo, "chapa"), "gúliver" (cabeça, de "golovo", em russo), "nadsate" (adolescente) etc., vocabulário genial repetido à perfeição no filme.

Voltando à estória, definiria como uma ode ao tempo, conforme demonstra o personagem principal no final do livro: "Talvez eu estivesse ficando velho demais para o gênero djísene que eu vinha levando, irmãos. Eu estava com dezoito anos. Dezoito já não era mocidade. Com dezoito o velho Wolfgang Amadeus já tinha escrito concertos, sinfonias, óperas e oratórios"... O mesmo tempo que mostra o quanto nossa sociedade pouco evolui (tanto que o livro, assim como o filme, continuam mais que atuais em sua temática), sem acompanhar a ligeireza da crueldade ou mesmo dos pensamentos dos adolescentes! Ou ainda o tempo que educa e traz a maturidade às maiores agressividades, sem a necessidade da presença onipresente do Estado, que "agride" e "oprime" através da intervenção de programas estatais como a Laranja Mecânica que dá nome ao título, capaz de "transformar" um cruel e violento ser humano em um cordeirinho enojado com qualquer idéia de violência - numa das cenas mais marcantes do Cinema, onde Alex é forçado a ver cenas e mais cenas de agressão, amarrado numa cadeira, com os olhos forçosamente abertos, sendo cobertos de tempos em tempos por colírio pelos técnicos da experiência! Realmente "horrorshow"!

Enfim, a grande preciosidade dessa estória tão rica é que não haja heróis ou vilões: o menino opressor violento vira oprimido e vítima do Estado (ou da própria sociedade civil, que não perde a primeira chance de se vingar), que, por sua vez, volta atrás e procura "corrigir" seus erros... E ficamos, no final, com uma preciosidade que demora muito tempo para se dissipar de nossas pobres mentes "manipuladas" - graças ao talento narrativo de Burguess e, especialmente, àquela fotografia quase onírica, espécie de marca registrada dos filmes de Kubrick (superada somente pelo mais que perfeito Barry Lindon)...

Quanto ao título, uma breve e última explicação do tradutor Nelson Dantas: "A Clockwork Orange é uma expressão da gíria cockney que denomina o desajustado agressivo e desequilibrado, que odeia as instituições e os seres e os agride, inclusive fisicamente, mas por razões puramente psicológicas, sem nenhuma politização nem ideologia. Alex é exatamente isso. A expressão aproximada, se bem que ainda inexata em Português, seria 'porra-louca'"... Mas, mudando de assunto, meus caros irmãos: "Qual vai ser o programa, hein"?


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