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O RETRATISTA OU UMA POSE PARA GEORGIANA


O RETRATISTA OU UMA POSE PARA GEORGIANA
                                                                                      das memórias do meu pai




Foto ©Andres Sierra


Era rotina na casa: todas as mulheres acordavam mais cedo, ficando a meu cargo o célebre apelido de dorminhoco. A primeira, sempre pontual, a Maria branca, a babá “mãe”, e braço direito da minha esposa Marly. Com ela todas as meninas, minhas 06 filhas, já se levantavam. O ano era de 1974 e ainda não tínhamos os dois mais novos, Luciana e Zeca. Maria Branca era a luz e a energia pela manhã. Além das meninas, as duas tias , Mairsa e Matilde, levantavam-se para a labuta, acompanhadas da matriarca Marly. O café da manhã já começava a ser feito, e , em lugares separados, as crianças comiam e se divertiam na mesa da cozinha velha. Simone , Silvana, Juliana e Susana, já formavam a algazarra no meio do cada vez eminente barulho, que rondava aquela casa com doze mulheres: seis filhas, duas tias, uma tia avó, três empregadas.

Maria Branca parecia uma regente, cuidava do cuscuz de arroz, do café, não deixava o leite derramar, gritava com as meninas mais velhas, enquanto tinha Georgiana a sua saia, e Rosana tentando seus primeiros passos na casa. A tia avó Raeltilde, a tia terré, cuidava de arrumar seu guarda roupa, e esconder suas joias, bonecas de porcelanas, maquiagens das meninas. Em um dia típico da semana, Maria Branca, tratava de “despachar” as meninas mais velhas para a escola. E dava as ordens do dia, para comida e limpeza da casa, para as outras duas empregadas, enquanto Marly , Matilde e Mairsa, se dirigiam a labuta diária de professoras. Eu acordava , meio sonado, e antes de qualquer coisa, empurrava minha primeira dose de nicotina para começar o dia em alerta: o cigarro era, à época, um grande companheiro, do primeiro trago as oito da manhã, até o último, por volta das vinte e três horas. Depois, ia quase que no piloto automático em direção a prefeitura, ofício que fazia àqueles dias.

Toda essa rotina se modificava, aos fins de semana, principalmente aos sábados, onde costuma acordar com o grito do vendedor de bode, passando pela rua Nova, fazendo coro as vozes de doze mulheres em diferentes fases e idades. Sábado era dia de descanso, mas era quase impossível acordar um pouco mais tarde, porque além da energia costumeira dessas mulheres da minha vida, do som cada vez mais pungente das ruas, em Santa Inês, era dia do retratista passar nas residências.

Seu Catariano, como era chamado, era o fotógrafo mais famoso daqueles anos em Santa Inês. Um negro alto, com quase dois metros de altura, e sempre acompanhado da sua máquina Yashica Minister, responsável por retratar quase toda nossa história da cidade. Boa parte da nossa memória fotográfica devemos a ele, de minha família e de tantas outras; nossos álbuns fotográficos foram feitos por seu Catarino. Ao clicar nossa memória diária, compôs com maestria uma boa parte da história da cidade.

Maria Branca era a mais agitada de todas quando seu Catarino chegava. Dava ideias de poses, dizia a ordem e quem seria fotografado. E tentava fazer uma ordem cronológica com prioridades. As filhas mais velhas, Simone e Silvana, foram vetadas por já terem sido clicadas diversas vezes. Juliana seria a próxima da fila, mas ela mesmo se retirou, pois estava envergonhada do cabelo mal cortado pela sua Tia Matilde. Um corte que a deixou com os cabelos bem curtos, lembrando as feições de um menino. Sobrou então para Susana, com seus cabelos lisos e semblante sisudo, lembrando uma indiazinha Timbira, que trouxe à família o gene de minhas bisavós.

Esse sábado  específico ,que escolhi retratar aqui, nesse imenso relicário de lembranças, eu trago os cheiros e sons como se fosse vivido aqui nas minhas palavras. Cheiro do assado , do arroz de cuxá e o feijão verde na pressão. Cheiro do vinho de garrafão que tia Raetilde, sempre dava uns goles antes do almoço dos fins de semana. Sons de gritos, sussurros  das meninas e mulheres, do vinil tocando Noite Ilustrada, Padre Zezinho, Roberto Leal, Eliseth Cardoso e tantos outros. Sábado dos volantes de sons anunciando de tudo: de velórios e promoções de um famoso armazém. Sábado que deixava Maria Branca ainda mais “general”, para arrumar a filha escolhida para o retratista mais famoso da terra santa.

Susana já estava a postos, desde sete horas. Não era de se estranhar, pois as mulheres da casa odiavam atrasar qualquer compromisso, mesmo que este fosse só para as nove da manhã, horário costumeiro do retratista Catarino chegava em nosso lar. Acordei supresso de ver minha filha Timbira, já pronta sentadinha no sofá com ar de tédio, com certeza pelas horas a espera para a famosa foto. Comi meu cuscuz de arroz costumeiro, ensopado de manteiga  com café preto adocicado ao excesso , fumei mais três cigarros, e já ia sentar-me para dedilhar meu inseparável violão, quando surpreendi-me com Susana correndo, com seu vestido novo branco com azul, e já a essa hora, respingado de lama dos bueiros do quintal.

Maria Branca pedia ajuda de minha esposa Marly, e as duas empregadas, Marcelina e Maria, para trazer de volta a acuada indiazinha Timbira do fundo do quintal, escondida atrás do grande pé de jamelão, que de forma errada chamávamos de azeitona preta. Susana havia corrido ao ver aquele fotógrafo alto e risonho, munidos de seus equipamentos para tirar seu retrato. E mesmo com os gritos de sua tia Matilde , não tivesse cristão ali que a fizesse posar.

Já passados meia hora , e Susana já chorava sem roupa e no seu quarto, com uma reclamação interminável de Maria Branca, mais preocupada com a foto e seu Catarino ter perdido a viagem, do que com o choro soluçante da minha filha Susana. A solução encontrada foi fazer um ensaio comigo, pousando com meu novo violão, que a esse momento rabiscava uns sonhos como de costume. Na sala havia comprado uma bela radiola em forma de aparador, cor de mogno, onde eram ali, que tirávamos os primeiros sons de músicas dos sábados e domingos até a invenção do famigerado cd.

O grande, em tamanho e talento, Catarino arrumou seu tripé e fez uma bela sequência, com sua não tão boa máquina Yashica Minister. Posei de diversas formas e quando íamos encerrar, ele propôs uma sequência com a máquina na sua mão. Para meu espanto , e agradável surpresa, ao tirar a última foto , comigo sentado na cadeira e segurando o violão em um ângulo quase que de 90 graus, minha filha Georgiana largou a barra da saia da Maria Branca ,para posar ao meu lado, “vestida” apenas de uma calcinha bordada e sua singela botinha preta. Posou como se fosse a maior modelo infantil da época, com um sorriso tão puro, que fez seu Catarino fazer uma sequência de diversos ângulos , mesmo com os gritos de Maria Branca e Matilde, reprovando a intromissão, e, mais ainda, os trajes da minha pequena, risonha e loirinha filha.

Catarino saiu avisando que teria uma surpresa, uma ou duas semanas depois das fotos reveladas. Enquanto isso, a semana correu com todas as repetições que tínhamos direito: Maria Branca acordando e direcionando minhas filhas, Marcelina e Maria labutando com a casa sempre cheia, e envoltas na produção da vasta comida servida no dia a dia. Matilde com seus afazeres da igreja, Mairsa na sombra das meninas e Marly mergulhada em aulas e planejamento escolar.

Decorridas duas semanas, em um sábado, onde fui acordado pelos sons da rua e de casa, recebi seu Catarino e seus apetrechos fotográficos, com um sorriso diferente: já foi logo me avisando que tinha excelentes sequencia minhas e uma surpresa que sairia mais cara. Tratou-me de me apresentar dez fotos minhas, sendo uma que seria eternizada, chamada por todos os filhos de “papaizão”: uma foto 16x20 minha posando abraçado com meu violão. Fiquei com as dez fotos minhas, já propondo um abatimento, quando seu Catarino, sacou a surpresa mais cara...

Estava lá, a foto mais bonita, da minha parca memória há de lembrar, que seu Catarino tirou de um filho meu. Georgiana, minha única filha loirinha, ao meu lado, com um sorriso de anjo e captado sobre medida pelo retratista de quase dois metros de altura. Já convencido de pagar a mais pelas fotos de minha filha, Catarino, apresentou ainda uma foto colorida, com a mesma pose.Naquele momento já nem me importava, pagar míseros cruzeiros a mais, para ter registrado em cores minha única filha loira, sorrindo, pousando e posando ao meu lado, lembrando a personificação de um anjo , como também, a herança de minha família na cor de seus cabelos loiros , mesmo que coloridos artificialmente pelas mãos de Catarino. 


**************** FIM****************

©José Viana Filho

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